BICADA DA ÁGUIA
Putin e Trump: paralelos de poder e soberania em um mundo de disputas geopolíticas
Publicado em
14 de janeiro de 2026por
Eugenio Piedade
Grigory Dukor/Reuters/Direitos rerservadios
Em contextos políticos, institucionais e históricos distintos, Vladimir Putin, presidente da Rússia, e Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos e novamente protagonista do cenário político global, compartilham traços marcantes em sua visão de mundo e na forma como exercem poder no tabuleiro geopolítico. A comparação entre ambos, longe de equivalências simplistas, revela padrões comuns de comportamento estatal associados ao imperialismo moderno, entendido como a projeção de poder para garantir interesses nacionais além das fronteiras.
Nacionalismo como base da política externa
Tanto Putin quanto Trump estruturam sua política externa sobre um nacionalismo assertivo, no qual a soberania nacional é tratada como valor absoluto.
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Putin sustenta a noção de uma “Rússia histórica”, com direito a influenciar territórios que considera parte de sua esfera natural de segurança.
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Trump, ao adotar o lema America First, redefiniu a atuação internacional dos EUA a partir de ganhos diretos e imediatos, mesmo que isso implicasse tensões com aliados tradicionais.
Em ambos os casos, o discurso interno associa a política externa à proteção do interesse nacional contra ameaças externas, ainda que essa lógica resulte em ações intervencionistas.
Contestação da ordem liberal internacional
Putin e Trump demonstram desconfiança em relação às instituições multilaterais criadas no pós-Segunda Guerra Mundial:
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A Rússia acusa a OTAN e a União Europeia de funcionarem como instrumentos de expansão ocidental.
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Os Estados Unidos, sob Trump, criticaram organismos como a ONU, a OMC e a OMS, alegando perda de autonomia e desequilíbrios de poder.
O resultado é uma postura que privilegia relações bilaterais e negociações diretas, enfraquecendo consensos multilaterais e regras universais.
Poder como instrumento legítimo de influência
Embora utilizem ferramentas diferentes, ambos recorrem à coerção como instrumento central de política externa:
Rússia
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Uso direto da força militar em regiões estratégicas.
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Energia e recursos naturais como alavancas diplomáticas.
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Pressão constante sobre países vizinhos.
Estados Unidos
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Sanções econômicas em larga escala.
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Pressão comercial e tecnológica.
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Presença militar global como elemento dissuasório.
Especialistas apontam que essa lógica reflete uma visão realista das relações internacionais, na qual o poder prevalece sobre normas abstratas.
Flexibilização seletiva do direito internacional
Tanto Moscou quanto Washington demonstram adesão condicional ao direito internacional:
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A Rússia questiona fronteiras e tratados quando considera seus interesses estratégicos ameaçados.
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Os EUA, sob Trump, abandonaram ou renegociaram acordos multilaterais considerados desfavoráveis, como o Acordo de Paris e o acordo nuclear com o Irã.
A convergência está na ideia de que regras internacionais não são fins em si mesmas, mas instrumentos subordinados ao interesse nacional.
Liderança personalizada e imprevisibilidade estratégica
Outro ponto de contato é a personalização da política externa:
-
Decisões concentradas no líder.
-
Comunicação direta com a população, muitas vezes à margem da diplomacia tradicional.
-
Uso da imprevisibilidade como ferramenta de pressão e negociação.
Essa abordagem amplia a capacidade de manobra, mas aumenta a instabilidade do sistema internacional.
Diferenças estruturais que moldam estratégias
Apesar das semelhanças, as diferenças são significativas:
| Aspecto | Estados Unidos (Trump) | Rússia (Putin) |
|---|---|---|
| Alcance geopolítico | Global | Regional |
| Poder econômico | Hegemônico | Limitado |
| Sistema político | Democracia institucional | Regime autoritário |
| Ferramentas centrais | Economia, sanções, alianças | Força militar e energia |
Essas distinções explicam por que o imperialismo americano se manifesta de forma institucionalizada e global, enquanto o imperialismo russo se concentra em zonas de influência imediatas.
Uma convergência pragmática
Analistas destacam que Putin e Trump representam variações contemporâneas do realismo político, no qual:
-
O interesse nacional é prioritário;
-
A força é um meio legítimo;
-
A soberania é defendida internamente e relativizada externamente.
Mais do que exceções, ambos refletem uma tendência crescente entre grandes potências: a substituição do ideal de uma ordem global baseada em regras pela lógica de equilíbrio de poder.
Um mundo em transição
A ascensão e a influência dessas lideranças indicam um cenário internacional marcado por competição estratégica, fragmentação institucional e menor previsibilidade. Nesse contexto, a comparação entre Putin e Trump ajuda a compreender não apenas estilos pessoais de liderança, mas mudanças estruturais no funcionamento do sistema internacional.
Em um mundo cada vez mais multipolar, a disputa entre normas e poder segue aberta — e longe de uma resolução consensual.

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