GDF / BRASÍLIA
Via Sacra do Morro da Capelinha, em Planaltina, emociona milhares de fiéis
Publicado em
18 de abril de 2025por
Eugenio Piedade
Com mais de 50 anos de tradição, a Via Sacra do Morro da Capelinha, em Planaltina, reuniu milhares de fiéis, nesta sexta-feira (18), para a encenação da Paixão de Cristo. Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do DF, a celebração é feita a muitas mãos, com participação de 1,4 mil voluntários, e contou com investimento de mais de R$ 1,7 milhão do Governo do Distrito Federal (GDF). O aporte foi direcionado por meio da Secretaria de Turismo (Setur-DF), oriundo da Fonte 100, um dos principais meios de recursos do orçamento público do DF.
Diversas autoridades do GDF prestigiaram a celebração que une fé e cultura | Foto: Renato Alves/Agência Brasília
O evento começou às 15h, com uma missa presidida pelo arcebispo de Brasília, Dom Paulo Cezar Costa. Depois, foi iniciado o espetáculo principal, que durante quatro horas levou o público pelas 14 estações da Via Sacra — em um trajeto de 800 metros que retrata o julgamento, a prisão, a crucificação, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo.
“É um dia de muita fé, de milagre, em que as pessoas se renovam. Sempre falo para quem não conhece a experiência para vir aqui, ver o momento doloroso de Jesus. É algo muito especial, é um momento em que as pessoas se unem para orar e se restabelecer novamente”, declarou a governadora em exercício, Celina Leão. “É um evento que tem 100% de apoio do GDF. Esse ano tivemos o maior número de policiais da história, ou seja, é um lugar onde as famílias podem ir com tranquilidade. Tem todo um aparato de policiais militares, policiais de serviço, Corpo de Bombeiros, Conselho Tutelar.”
O administrador regional de Planaltina, Wesley Fonseca, celebrou o sucesso de mais uma edição da festa religiosa e disse que a expectativa era reunir mais de 100 mil pessoas. “Toda a força de segurança e o governo estiveram presentes para garantir que o evento saísse de forma excelente”, destacou. “É um evento familiar. A Secretaria de Segurança Pública coordena todos os órgãos envolvidos, e a organização do evento direcionou bem as atividades. Houve policiamento, pontos de distribuição de água, tudo para acolher bem o público.”
Celina Leão: “Sempre falo para quem não conhece a experiência para vir aqui, ver o momento doloroso de Jesus. É algo muito especial, é um momento em que as pessoas se unem para orar e se restabelecer novamente” | Foto: Renato Alves/Agência Brasília
Fonseca também observou que, diferentemente do ano passado, em que não houve precipitações, nesta edição houve registro de chuva na cidade logo no início da tarde. “Choveu forte por volta de meio-dia até uma da tarde, o que fez com que muita gente começasse a chegar depois desse horário. Mas, ainda assim, o público compareceu em massa. Tenho certeza que este ano bateu recorde de público”, completou.
Milhares de fiéis foram ao Morro da Capelinha, mesmo com a chuva no início da tarde | Foto: Renato Alves/Agência Brasília
Diversos órgãos prestaram apoio logístico ao evento, como a Polícia Militar (PMDF), Corpo de Bombeiros Militar (CBMDF), Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb), Departamento de Trânsito (Detran-DF), Conselho Tutelar e Administração Regional de Planaltina. A CEB Ipes também auxiliou com a instalação de 80 refletores de iluminação provisória, com o objetivo de garantir mais sensação de segurança, visibilidade e conforto para o público.
Fé e emoção
A via-sacra do Morro da Capelinha é considerada Patrimônio Cultural Imaterial do DF desde 2008
A via-sacra do Morro da Capelinha nasceu de um sonho do padre Aleixo Susin, antigo pároco de Planaltina que faleceu em 2021, aos 92 anos. Consolidado como uma tradição brasiliense, o espetáculo cênico da morte e ressurreição de Jesus Cristo é considerado Patrimônio Cultural Imaterial do DF desde 2008, pelo Decreto nº 28.870/2008, e foi incluído no calendário oficial de eventos da capital federal em 1986. A primeira montagem ocorreu em 1973.
Thaísa Martins participa da celebração há cinco anos: “As pessoas se dedicam para estar aqui, para representar uma história que aconteceu há tanto tempo” | Foto: Matheus H. Souza/Agência Brasília
A estudante Thaisa Martins, 19, participa da celebração há cinco anos consecutivos e conta que a motivação é a fé em Jesus Cristo. “Também é muito bonito ver a encenação. As pessoas se dedicam para estar aqui, para representar uma história que aconteceu há tanto tempo. Então é um pouco de tudo: a fé, o evento, as pessoas”, afirmou. Sobre a estrutura do evento este ano, elogiou a organização: “Hoje está diferente. Vi bastante policiamento, mais banheiros, tudo bem organizado.”
A comerciante Anorasi Ramos, 64, moradora de Ceilândia, contou que esta é a terceira vez que participa da Via Sacra no Morro da Capelinha. “Já fazia seis anos que eu não vinha, mas hoje voltei”, disse. “A gente faz promessa, então tem que vir, tem que subir [o morro]”, afirmou. Sobre a organização do evento, elogiou a presença da segurança: “Muito bom. Vi tanta polícia. Está tudo muito bem organizado, mesmo chegando em cima da hora, com a missa já começando”.
Nilson dos Santos: “Para mim, essa encenação é uma forma de vivenciar um pouco do que Jesus passou, claro, à nossa maneira” | Foto: Matheus H. Souza/Agência Brasília
O fotógrafo Nilson dos Santos, 43, participa do evento desde os 11 anos de idade. “Já perdi as contas de quantas vezes subi. Para mim, essa encenação é uma forma de vivenciar um pouco do que Jesus passou, claro, à nossa maneira. Essa peregrinação com tanta gente é uma experiência única”, contou. Nilson também falou sobre o sentido espiritual da caminhada: “Já fiz promessas e hoje venho para agradecer”.
Movidos pela fé
Diante da magnitude da celebração, são necessários meses de planejamento e ensaios. Do total de voluntários envolvidos, cerca de 1,1 mil são atores e 300, da produção. Os ensaios começam oito semanas antes, junto da preparação do Morro da Capelinha, para que os fiéis sejam recebidos da melhor maneira possível.
Rafael Gonçalves viveu Jesus Cristo pela segunda vez e se emocionou com a oportunidade | Foto: Renato Alves/Agência Brasília
Antes da encenação, nesta sexta, os atores foram reunidos no Centro de Ensino Médio 01 de Planaltina, para preparação do figurino e maquiagem. Em uma das salas, estavam o Rei Herodes e Salomé, importantes personagens da liturgia católica, representados pelo empresário Paulo Castro e pela bailarina Kênia Cavalcante, respectivamente.
Há 15 anos participando do evento, este foi o primeiro de Paulo no papel de um dos vilões da história de Jesus Cristo. Ele conta detalhes dos preparativos para o grande dia: “Começamos os ensaios no segundo domingo da Quaresma, com ensaios semanais e, na Semana Santa, um por dia, justamente para chegar no dia mais tranquilo — apesar de que a emoção não deixa.” Mesmo com o nervosismo, ele confiava que as coisas sairiam do jeito certo. “Sem o apoio do governo, a Via Sacra não tem como ser realizada. Toda a estrutura física, de segurança, saúde, é o GDF que dá esse apoio para a gente e traz tranquilidade e segurança para todos que estão presentes.”
Para Kênia, a oportunidade ficará marcada em sua história pessoal. “Está sendo uma experiência totalmente diferente do que eu já tinha feito na Via Sacra. É um desafio, é uma responsabilidade”, contou ela, que antes atuava apenas na parte de coreografia. “A Salomé é um personagem muito forte, muito marcante. Então, eu precisei me redobrar ali nos ensaios e hoje vai ser a realização de um sonho e de uma construção artística muito forte. A Via Sacra tem esse poder, sabe? É muito da fé também e muito da realização de cada um. Estar aqui, estar por dentro, e acompanhar as outras pessoas, ver a devoção que elas têm, tem sido muito importante para mim”, completa.
O papel mais importante da Via Sacra ficou com o gerente de comércio Rafael Gonçalves, que interpretou Jesus Cristo pelo segundo ano consecutivo. “É uma emoção muito grande representar Jesus Cristo. Nos preparamos bastante durante toda a Quaresma, com ensaios todos os dias à noite, nos finais de semana no Morro da Capelinha, para levar essa mensagem que nós tanto buscamos, que é o amor de Deus para as pessoas que irão nos assistir”, comentou. “Se não tivesse apoio, a gente não conseguiria fazer esse evento. Então, o apoio do governador, da Secretaria de Turismo, dos parlamentares que fizeram todo o trâmite, foi necessário e essencial para que a gente realizasse tudo isso.”

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