POLÍTICA DO BRASIL
O STF e a fronteira do equilíbrio democrático
Publicado em
9 de março de 2026por
Eugenio Piedade
Recentemente, tive a satisfação de conceder uma entrevista ao jornalista Pedro Campos, no programa Jornal Gente, da Rádio Bandeirantes. Indagado sobre o que está acontecendo com o Supremo Tribunal Federal, respondi a ele prontamente e, agora, compartilho com os leitores os pontos centrais daquelas considerações, como extensão desta reflexão.”
Tenho a impressão de que o cerne da questão reside no fato de que, em um determinado momento destes últimos anos, de forma inédita em nossa história, o Supremo decidiu assumir-se também um partner, um parceiro, um player político no cenário nacional.
Quando o Excelso Pretório começou a invadir as competências do Legislativo e do Executivo, ele, de certa forma, transformou-se no “Supremo Poder” da República, acima dos demais Poderes.
Durante o regime militar, tínhamos o Poder Executivo como dominante; agora, temos um Poder que, por ter a prerrogativa da “última palavra” sobre o Direito, interfere e legisla, repetidas vezes, no lugar do Parlamento e, frequentemente, atua nas atribuições do Executivo.
Não emito juízo de valor sobre os ministros, até porque possuo obras escritas em coautoria com vários deles, participei de bancas de doutorado, compartilhei painéis e proferi palestras com a maioria deles e os considero grandes juristas.
Não concordo, entretanto, com suas atuais decisões porque vivi e participei daqueles 20 meses de discussão da Assembleia Nacional Constituinte, ao lado de Ulysses Guimarães e Bernardo Cabral — presidente e relator do processo que resultou na nossa Carta Magna. Esse fato me permitiu testemunhar a intenção original dos constituintes com a nova Constituição. Saindo de um regime de poder centralizado, o desejo dos constituintes era a consolidação de três Poderes estritamente independentes e harmônicos. Todavia, a partir do momento em que o STF assume prerrogativas não previstas no texto constitucional, agindo por conta própria, torna-se, inevitavelmente, um playe r político.
Por esse motivo, independência e harmonia entre os Poderes, as competências de cada esfera foram delimitadas com exaustão na Constituição.
Houve um tempo em que o povo nutria um respeito profundo pelo Supremo, reconhecendo-o como a instituição mais digna e admirada do País. Eu saía com os ministros e andávamos sozinhos pela rua, sem necessidade de segurança. Naquela época, não era preciso dizer que eles eram os defensores da democracia, porque todos já o sabiam. Agora, infelizmente, tudo isso mudou.
Minha divergência não diz respeito aos juristas, nem à dignidade pessoal de cada um, mas à forma como passaram a interpretar e reescrever a Constituição Federal. Com todo respeito, e sem emitir juízo de valor, acredito que, no momento em que começaram a reescrever o texto e a interferir nos demais Poderes, tornaram-se alvos de reações políticas. À medida que essa demonstração de força se acentuou, os outros Poderes também reagiram. Portanto, os ministros passaram a sofrer reações igualmente políticas.
Tenho a sensação de que o Supremo poderia retomar o perfil da era de Moreira Alves, Oscar Corrêa e outros. Os próprios ministros atuais poderiam reconduzir o Tribunal ao seu papel histórico: o de guardião da Constituição, e não o de legislador complementar ao Congresso ou de um Executivo ad hoc. Caso contrário, continuarão sendo alvo das críticas políticas, que variam conforme o posicionamento da ocasião.
O caso do “Banco Master”, por exemplo, deveria estar, a meu ver, sob o juiz natural, em primeira instância, pois Daniel Vorcaro não possui foro especial. No entanto, levaram a questão para o Supremo. O mesmo ocorreu com os episódios de 8 de janeiro: uma série de questões levadas à Corte sem que os envolvidos tivessem a prerrogativa que a Constituição exige para o julgamento pelo STF. A Constituição é clara sobre quem deve ser julgado pelo Supremo: o presidente, deputados, senadores e outros cargos específicos. Jamais cidadãos comuns, sem qualquer destaque na vida pública.
Este panorama desfigurou a imagem do STF. Pesquisas de opinião evidenciam que a reputação da Suprema Corte perante a sociedade é hoje muito inferior à de períodos anteriores, quando a instituição era amplamente respeitada. Somado a isso, nota-se uma reação crescente na imprensa e nas redes sociais contra um protagonismo que extrapola os limites estabelecidos pela Constituição.
A Constituição brasileira é clara: o artigo 49, inciso XI, estabelece ser competência exclusiva do Congresso Nacional “zelar pela preservação de sua competência legislativa em face da atribuição normativa dos outros Poderes”.. Isso permite ao Parlamento sustar atos de outros Poderes que invadam sua função legislativa. Já o artigo 103, § 2º, reforça que, mesmo nas ações diretas de inconstitucionalidade por omissão, o papel do Supremo limita-se a declarar a lacuna e notificar o Legislativo. Ou seja, dar ciência ao Poder competente para a adoção das providências necessárias. O referido artigo regula a A ção Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO) e estabelece que, “ao declarar a inconstitucionalidade por falta de medida para tornar efetiva uma norma constitucional, o STF dará ciência ao Poder competente para a adoção das providências necessárias ou, se o órgão for administrativo, para fazê-lo em 30 dias”. Portanto, segundo a Carta Magna, o STF não pode substituir o Congresso, pois a criação da lei permanece como uma atribuição indelegável do Poder Legislativo.
Ao decidir interferir nas funções do Legislativo e do Executivo, determinando, inclusive, atos administrativos de governo, o Judiciário rompeu o equilíbrio democrático. O resultado é que os três Poderes perderam sua essência e geraram uma profunda desfiguração institucional. É precisamente nessa politização generalizada que reside a grave crise de confiança que vivemos atualmente, evidenciando que a restauração da harmonia entre as instituições é, antes de tudo, o resgate do império da própria Constituição.
Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª Região, professor honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio -SP, ex-presidente da Academia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).
Informações para a imprensa e entrevistas: Gabriela Romão – RV Comunicação (11) 97530-0029
Foto: Andreia Tarelow

TSE dá 24h para Meta e X explicarem distribuição de material político
Segundo turno: saiba como consultar local de votação para domingo
Desinformação faz com que só 5% das crianças sejam protegidas da covid
Teste de Integridade das Urnas movimenta fim de semana na CLDF
Biblioteca da CLDF passará por reforma de 120 dias; confira os serviços disponíveis
BRASÍLIA
TSE dá 24h para Meta e X explicarem distribuição de material político
Campanha de Lula alega favorecimento de conteúdos de Flávio Bolsonaro Felipe Pontes – repórter da Agência Brasil O corregedor-geral da...
Segundo turno: saiba como consultar local de votação para domingo
Checagem pode ser feita no-Título, Autoatendimento Eleitoral e ChatVot Agência Brasil Os 158 milhões de eleitores que vão às urnas...
Desinformação faz com que só 5% das crianças sejam protegidas da covid
Doença fez 15 vítimas com até 2 anos em 2026 Tâmara Freire – Repórter da Agência Brasil A covid-19 causou...
DISTRITO FEDERAL
Teste de Integridade das Urnas movimenta fim de semana na CLDF
Teste de Integridade das Urnas movimenta fim de semana na CLDF Procedimento pode ser acompanhado ao vivo pela TV Câmara...
Biblioteca da CLDF passará por reforma de 120 dias; confira os serviços disponíveis
Biblioteca da CLDF passará por reforma de 120 dias; confira os serviços disponíveis A Câmara Legislativa do Distrito Federal informa...
Alunos com altas habilidades iniciam estudos do Projeto Interação, da Escola do Legislativo
Alunos com altas habilidades iniciam estudos do Projeto Interação, da Escola do Legislativo Alunos de escolas particulares e públicas do...
POLÍTICOS DO DF
Segundo turno das eleições é destaque no Giro Distrital desta semana
Segundo turno das eleições é destaque no Giro Distrital desta semana Publicado em 19/10/2026 13h28 Já está no ar a...
CLDF celebra 48 anos do Parque da Cidade com sessão solene
CLDF celebra 48 anos do Parque da Cidade com sessão solene Sessão solene reuniu parlamentares, gestores e comunidade para balanço...
Anvisa proíbe venda de teste de glicemia Accu-Check Active na Amazon
Segundo a agência, os produtos são falsificados Paula Laboissière – Repórter da Agência Brasil A Agência Nacional de Vigilância Sanitária...
POLÍTICOS DO BRASIL
Eleições: entidades vão checar informações ao vivo durante debate
Lula e Flávio Bolsonaro se enfrentam na TV Globo, na sexta-feira Pedro Peduzzi – Repórter da Agência Brasil Quem acompanhar...
Estudo aponta atividade humana nas emissões de carbono na Amazônia
Pesquisa classificou dados coletados entre 2010 e 2024 Fabíola Sinimbú – Repórter da Agência Brasil Um estudo que pesquisou 15...
Aberta inscrição para seleção de professor elaborador do Enade 2027
Interessados podem se inscrever até 14 de dezembro em sistema do Inep Daniella Almeida – Repórter da Agência Brasil Os...
TRÊS PODERES
Plataforma pan-amazônica reúne 232 políticas públicas para bioeconomia
Iniciativas estão distribuídas por nove países Rafael Cardoso – Repórter da Agência Brasil A Pan-Amazônia, região que engloba nove países...
Solenidade nesta quinta-feira (22) comemora os 48 anos do Parque da Cidade
Solenidade nesta quinta-feira (22) comemora os 48 anos do Parque da Cidade Iniciativa do deputado Martins Machado celebra um dos...
Eleitores do DF voltam às urnas para escolher entre Celina e Grass
Total de eleitores aptos a votar no Distrito Federal é de 2,2 milhões Agência Brasil Celina Leão (PP) e Leandro...
ENTORNO
Entidades divulgam manifesto pela valorização do serviço público
Instituições alertam para polaridade de propostas eleitorais Douglas Corrêa – Repórter da Agência Brasil Às vésperas do segundo turno das...
Quedas: mais de 330 mil crianças foram internadas no Brasil em 10 anos
Dado consta em levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) Paula Laboissière – Repórter da Agência Brasil Apenas no primeiro semestre...
Sancionada lei que perdoa dívida e aumenta limite de MEI
Medida deve alcançar 17,6 milhões de empreendedores Paula Laboissière – Repórter da Agência Brasil Foi sancionado nesta quarta-feira (21) o...












