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Quando o professor volta a ser aluno: docentes prestam o Enem e vestibulares para entender melhor seus estudantes

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No mês do Dia do Professor e da temporada de vestibulares, docentes contam por que vivem a experiência de estar nos bancos escolares

 

São Paulo, 19 de outubro de 2026 — Para quem passa anos preparando estudantes para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e os vestibulares, conhecer uma prova não significa necessariamente saber como é vivê-la. É por isso que dois professores decidiram, de tempos em tempos, trocar a lousa pela cadeira de aluno. Thiago Silvério Barbosa, professor de Língua Portuguesa da Escola Internacional de Alphaville, de Barueri (SP), faz o Enem todos os anos. Já Marco Oliveira, conhecido como o “Professor Pinguim”, do colégio Progresso Bilíngue de Campinas (SP), também mantém o hábito de prestar vestibulares, incluindo o da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

 

Para eles, a experiência vai muito além de testar conhecimentos: é uma forma de reencontrar sensações que fazem parte da rotina dos estudantes, como ansiedade, insegurança, cansaço, pressão e a necessidade de tomar decisões sob o relógio; e levar esse aprendizado de volta para a sala de aula.

 

Thiago: “Eu faço a prova para reencontrar o estudante que eu fui”

A relação de Thiago Silvério Barbosa com a educação começou antes mesmo da escolha pela docência. Durante a preparação para o vestibular, se encantou pelas aulas de literatura de um cursinho, experiência que diz ter sido determinante para sua trajetória. Ele acabou ingressando na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde formou-se em Letras, também fez mestrado, e atualmente cursa doutorado em Ciências Sociais na mesma universidade.

 

“Eu estudei em universidade pública e essa experiência mudou profundamente a minha vida. A educação abriu possibilidades que talvez eu não tivesse encontrado de outra maneira. Por isso, ser professor, para mim, nunca foi apenas uma profissão”, conta.

 

É justamente por reconhecer o impacto que a educação teve em sua própria vida que Thiago decidiu continuar ocupando o lugar de candidato. “Antes de ser professor, eu também fui aluno e, na verdade, continuo sendo. Eu faço o Enem todos os anos e isso tem um significado muito especial para mim. É uma forma de voltar ao momento em que a educação começou a transformar minha própria trajetória. É rever o estudante que um dia eu fui e, ao mesmo tempo, reconhecer esse estudante que continua existindo em mim, além de compreender melhor os estudantes que eu tenho hoje”, afirma.

 

Este ano, a maratona do Enem acontece em 8 e 15 de novembro. No primeiro dia, os candidatos terão 5h30 para responder às 90 perguntas das provas de Linguagens e Ciências Humanas e produzir a redação; no segundo dia, serão cinco horas para as 90 questões sobre Ciências da Natureza e Matemática.

 

Para Thiago, porém, o que mais importa não é simplesmente saber o conteúdo cobrado. É sentir novamente o que acontece quando o conhecimento precisa ser mobilizado sob pressão. “Existe uma diferença enorme entre falar sobre uma experiência e viver essa experiência. Quando eu faço a prova, eu volto a sentir o tempo passando, a quantidade de questões, o cansaço, a dúvida entre as duas alternativas, a ansiedade diante de uma questão difícil. Isso me ajuda a dar aos meus alunos condições para fazer melhor a prova quando chegar a hora deles”, explica.

 

A experiência também o fez perceber que a dificuldade enfrentada pelos jovens não termina quando eles dominam determinado conteúdo. “A prova me ensinou principalmente que a dificuldade não está apenas no conteúdo. Existem diversas dificuldades: administrar o tempo, sustentar a concentração por horas, decidir quando insistir em uma questão e quando seguir em frente, lidar com uma alternativa que parece correta e outra que parece ainda melhor. Existe uma dimensão emocional muito grande”, afirma.

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Essa percepção passou a fazer parte de seu trabalho. Thiago conta que hoje conversa mais com os alunos sobre estratégia, leitura dos comandos, tomada de decisão e sobre como lidar com aquilo que eles ainda não sabem. Também procura desconstruir a ideia de que uma boa preparação significa não errar.

 

“O importante é entender o erro e chegar à prova sabendo lidar com aquilo que não sabemos. Fazer o Enem todos os anos me ajuda a manter essa preparação conectada com a experiência concreta da prova e não apenas com uma imagem que eu tenha construído dela”, diz.

 

Mas talvez a principal lição esteja na maneira como ele passou a enxergar cada candidato. “Para muitos estudantes, aquela prova concentra expectativas familiares, sonhos profissionais e anos de estudo. Isso pesa. Fazer a prova me lembra que, antes de ser um candidato, aquele jovem é um indivíduo que está tentando fazer alguma coisa muito importante que vai impactar o seu futuro.”

 

Por isso, se pudesse falar com um aluno minutos antes do exame, Thiago não começaria falando sobre conteúdo. Diria para o estudante olhar para o caminho que percorreu. “Você estudou bastante. Não há o que temer agora. Você não precisa saber tudo para fazer uma boa prova. Ninguém sabe de tudo. Você precisa confiar no caminho que percorreu até aqui. Faça a prova que você consegue fazer naquele dia. Não a prova perfeita. Não a prova que você gostaria de fazer. Mas a sua melhor prova possível.”

 

Pinguim: “Voltar à carteira de aluno muda a forma de ensinar”

A história de Marco Oliveira – conhecido como “Professor Pinguim” – com a docência começou de maneira quase acidental. Enquanto cursava Física na Unicamp, ele precisava de dinheiro e procurou um trabalho como professor. Não imaginava, naquele momento, que aquela decisão mudaria sua vida.

 

“Na verdade, eu não escolhi ser professor, foi um acaso. Só que, na primeira aula que eu ministrei, nem dormi à noite de tanta emoção que senti. Naquele momento encontrei o que eu deveria fazer dali em diante. Foi um daqueles presentes que a vida entrega para a gente”, relembra.

 

Passados 34 anos de docência, a sala de aula continua sendo sua principal paixão. O educador passou por colégios e cursinhos da região de Campinas, foi autor de materiais didáticos e diretor escolar. Atualmente, ele também tem um canal no Youtube, onde dá dicas de estudo para alunos em preparação para vestibulares. Mas mesmo depois de todas essas experiências, é como professor que ele diz se sentir realizado.

 

É também por isso que Pinguim continua prestando vestibulares, como o da Unicamp, cuja primeira fase é composta por 72 questões objetivas e pode durar até cinco horas. Os candidatos aprovados seguem para uma segunda fase dissertativa, realizada em dois dias e que inclui redação e questões de diferentes áreas, de acordo com a carreira escolhida.

 

Para um professor de Física acostumado a dominar sua área, fazer uma prova que envolve conteúdos de outras disciplinas significa deliberadamente entrar em um território de incerteza. E é justamente aí que, segundo ele, está uma das maiores aprendizagens.

 

“Quando eu faço questões que não são da minha área, eu vejo que o desafio não é só entender o conteúdo. Isso é fundamental, porque quando a gente ensina sempre a mesma coisa durante anos, tende a achar aquilo normal. Tende a pensar: ‘Como é que o aluno não sabe isso? Isso aqui é básico, isso aqui eu já expliquei na aula passada’. Só que além de você, outros oito professores explicaram matérias diferentes nas aulas das disciplinas deles para aquele mesmo aluno”, afirma.

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A experiência de não dominar um conteúdo faz com que o professor experimente sentimentos que seus alunos conhecem bem. “Quando você tem que fazer uma prova de um assunto que você não domina, você se sente inseguro, se sente frágil, você desconfia de si mesmo, fica bravo porque sabe que deveria ter estudado mais. Então, é fundamental se colocar no lugar do outro, sobretudo fazendo uma prova que não é da nossa área.”

 

Uma das situações que mais o marcou aconteceu durante os vestibulares foi quando estava resolvendo uma pergunta de Matemática, e percebeu que não conseguia chegar à resposta. Depois de refazer o exercício, descobriu que havia um erro na questão. O que veio depois, no entanto, foi mais importante do que descobrir o problema. “Eu parei um pouco e olhei na sala. Tinha umas 100 pessoas fazendo o vestibular. Fiquei pensando quantos estudantes poderiam estar inseguros por não conseguirem fazer uma questão que, na verdade, estava errada, e no quanto isso poderia afetar o desempenho deles.”

 

A partir daquela experiência, passou a discutir com seus alunos o que fazer quando uma questão parece não ter solução, quando é melhor deixá-la de lado e como administrar o tempo. “O professor tem que orientar o aluno a ter estratégia e resolução de prova. É muito melhor que o professor preste vestibular para entender qual é a estratégia de fazer a prova que ele está ensinando. Senão fica desconexo: eu só ensino a minha disciplina, mas não ensino o meu aluno a prestar a prova.”

 

Pinguim diz que o tempo e o cansaço são aspectos que só podem ser plenamente compreendidos por quem já esteve naquela cadeira. “O professor, em geral, não presta vestibular mais. Então ele não entende o cansaço, a pressão, a insegurança e a gestão do tempo: se o aluno tem que pular uma questão, se tem que enfrentar, qual ordem ele resolve a prova.”

 

Por isso, quando volta à sala de aula depois de um vestibular, o professor leva consigo não apenas novas observações sobre as questões, mas uma preocupação maior com aquilo que acontece durante os exames. “Toda vez saio pensativo em como tenho que explicar melhor, em como tenho que melhorar minha aula.”

 

Para ele, essa experiência também traz uma mensagem que gostaria que os estudantes levassem para a prova: não é preciso saber tudo, nem acreditar que o resultado depende de uma única questão.

 

“É muito difícil, para um aluno que estuda normalmente durante o ano, que em uma prova só caia conteúdos que ele não sabe. O que vai cair na prova é o que ele sabe. Para se dar bem, ele só tem que manter a calma, descobrir os dados, o enunciado, separar as questões fáceis primeiro, depois fazer as de média dificuldade, e deixar as difíceis para o final. Ele precisa entender que estudou, está preparado e vai conseguir.”

 

Pinguim acredita que sua disposição em estar sempre aprendendo talvez explique sua relação duradoura com a sala de aula. “Eu acho fundamental que o professor faça alguns vestibulares. Não precisa fazer todo ano, mas alguns sim. Para que ele resolva uma prova de Matemática sendo professor de História, que resolva uma prova de Física sendo professor de Português. Quando você se permite estar desconfortável, você entende o outro.”

 

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