DF
Estudantes da rede pública discutem solidão e violência simbólica a partir de clássico do teatro brasileir
Publicado em
2 de setembro de 2026por
Eugenio Piedade
Dirigida por Cléber Lopes, “Há Vagas para Moças de Fino Trato” cumpre dez sessões no Sesi Taguatinga, de 31 de agosto a 4 de setembro, com mediação antes e debate com o elenco depois

Antes mesmo de entrar no teatro, há uma conversa mediada com a turma. Não é aquecimento de elenco: é a primeira parte da programação. E quando as luzes se apagam pela última vez, ninguém vai embora. Atrizes, diretor e equipe técnica ficam para responder ao que a plateia quiser perguntar.
É assim que funcionam as dez sessões do Laboratório de Narrativas Vivas – Grandes Autores do Teatro Brasileiro, que ocupa a Sala Yara Amaral, no Sesi Taguatinga, entre 31 de agosto e 4 de setembro de 2026. A obra escolhida é “Há Vagas para Moças de Fino Trato”, de Alcione Araújo (1945-2012), na montagem dirigida por Cléber Lopes. As sessões são exclusivas para turmas de escolas públicas, e cada estudante sai com material educativo impresso sobre a peça e o autor.
O projeto volta ao mesmo teatro onde cumpriu temporada em maio de 2025. O laboratório se organizou como iniciativa educativa e passou a construir as ações em torno de três temas que atravessam o texto de Alcione Araújo e a vida de quem está assistindo: liberdade, moralidade e solidão.
A escolha cênica ajuda nesse trabalho. Nesta versão, o público não fica na plateia: senta no palco, a poucos metros das atrizes. Nalu Miranda, Carol Nemetala e Rosanna Viegas atuam no limite entre o que está escrito e o que acontece ali, naquela sessão, com aquelas pessoas olhando de perto. Para um estudante que nunca foi ao teatro, é uma estreia sem proteção nenhuma: dá para ver a respiração, o cansaço, o olhar que escapa.
O som completa o cerco. O músico e pesquisador lisboeta João Lucas assina uma sonorização em quadrifonia que reproduz os ruídos da casa e da rua, a água correndo pelo encanamento, os passos no cômodo ao lado, e acrescenta camadas simbólicas que deslocam a cena para outro lugar. O espectador não observa um apartamento: está dentro dele.
Escrita em 1974, sob a ditadura militar, “Há Vagas para Moças de Fino Trato” é a obra mais cultuada de Alcione Araújo, dramaturgo, roteirista, escritor e um dos intérpretes mais afiados do comportamento brasileiro. A peça acompanha a convivência de três mulheres e o que essa convivência vai produzindo: hierarquia, julgamento, uma violência que não se apresenta como violência porque está diluída na rotina. É exatamente aí que o texto encontra a sala de aula.

“Há Vagas Para Moças de Fino Trato foi escrita há meio século e, ainda hoje, (in)felizmente produz sentido muito similar ao seu contexto político-comportamental original. No discurso, radicalismos negligenciam o respeito e adoecem as individualidades. Comportamentos pautados por premissas, crenças e vivências são defendidos como verdades absolutas, ditos pelo prisma da violência moral. Tudo isso à luz do cotidiano, onde agressões simbólicas são naturalizadas em meio às demandas do dia a dia”, afirma o diretor Cléber Lopes.
Lopes persegue esse texto desde o início da carreira. São cinco montagens ao longo de 25 anos, uma especialização concluída em 2011 (FADM) e um mestrado defendido em 2016 (UnB). Cada remontagem incorporou as inquietações do momento em que foi feita, o que ajuda a explicar por que a peça segue produzindo sentido em salas de aula formadas por gente que nasceu três décadas depois da redemocratização.
A aposta do Laboratório é que o estudante não apenas assista, mas analise, discorde e se posicione. Por isso a mediação e o bate-papo são parte da programação, e não um apêndice: todas as dez sessões são precedidas de uma conversa preparatória antes de entrar no teatro e seguidas de debate aberto entre público e equipe do projeto, após o espetáculo.
A direção de cena é de Nei Cirqueira, que trabalha ao lado de Cléber Lopes para garantir que cada sessão continue fiel aos princípios formulados na pesquisa de mestrado do diretor.
A programação prevê recursos de acessibilidade de audiodescrição e LIBRAS em três sessões. O projeto é realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal.
Programação:
Segunda-feira, 31 de agosto — sessões às 15h e 20h.
Terça-feira, 1º de setembro — sessões às 9h30 e 15h.
Quarta-feira, 2 de setembro — sessões às 15h e 20h.
Quinta-feira, 3 de setembro — sessões às 9h30 e 15h.
Sexta-feira, 4 de setembro — sessões às 9h30 e 15h.
Todas as dez sessões são precedidas de mediação e seguidas de bate-papo entre o público e a equipe do projeto. Os estudantes recebem material educativo sobre o espetáculo.
Fotos e vídeos: https://drive.google.com/drive/folders/1rrvKtZkLZjwIG8x8YNdBtmyIHHbQHDpx?usp=sharing
Ficha Técnica
Elenco: Nalu Miranda, Carol Nemetala e Rosanna Viegas
Direção: Cléber Lopes
Direção de cena: Nei Cirqueira
Cenografia e figurino: Roustang Carrilho
Sonoplastia e música de cena: João Lucas
Coordenação de produção: Paula Jacobson
Assistente de produção: Rui Miranda
Monitora / assistente de produção: Nilza Lopes
Coordenação técnica e iluminação: Rodrigo Lelis
Montagem de luz: Davi Marcelino
Operação de luz: Jefferson Landim
Coordenação de acessibilidade: Fernando Rodrigues
Intérpretes de Libras: Celma da Silva Souza e Marcelo Rocha
Mediação educativa: Todo Público
Fotografia: Diego Bresani e Marcos Venicius
Design: Henrique Marinelli
Social media: Lunares Ayla
Assessoria de comunicação: Camila Maxi
Gestão administrativa: C1 Arte e Entretenimento
Assistente administrativo: Gleidson Lopes
Auxiliar de escritório: Vagner Lopes
Apoio: Kacus Martins / Espaço Cultural H2O
SERVIÇO
Laboratório de Narrativas Vivas – Grandes Autores do Teatro Brasileiro
Espetáculo: Há Vagas para Moças de Fino Trato
Local: Sala Yara Amaral – Sesi Taguatinga
Período: 31 de agosto a 4 de setembro de 2026
Sessões exclusivas para turmas de escolas públicas
Classificação indicativa: 14 anos
Informações: @C1produtora
Assessoria de imprensa
Baú Comunicação Integrada
Camila Maxi – (61) 98334-4279
Michel Toronaga – (61) 98185-8595
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