POLÍTICA DO BRASIL
IA entra no radar das eleições de 2026 e levanta alerta sobre influência na escolha do eleitor
Publicado em
22 de agosto de 2026por
Eugenio Piedade
Especialistas alertam para os riscos do uso da inteligência artificial nas eleições e defendem transparência, fiscalização e atenção do eleitor na verificação de informações
A inteligência artificial já faz parte do ambiente eleitoral e pode influenciar a forma como os eleitores buscam informações sobre candidatos, propostas e o próprio processo eleitoral. Além da produção de conteúdos sintéticos, como imagens, áudios e vídeos, o uso de ferramentas de IA também levanta preocupações sobre a forma como informações políticas são apresentadas e direcionadas ao público.
Levantamentos indicam que ferramentas de inteligência artificial generativa já podem influenciar a forma como os eleitores buscam informações sobre candidatos e o cenário político. Um estudo do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio) analisou sete plataformas de IA e identificou que seis apresentaram algum tipo de ranqueamento ou priorização de candidatos em respostas relacionadas às eleições de 2026.
Para Dhiego Soares, presidente da Global Tech e especialista em inteligência artificial, o fenômeno merece atenção, mas deve ser analisado sem alarmismo.
“O ponto central não é afirmar que a inteligência artificial está escolhendo o voto do eleitor, mas reconhecer que ela passou a fazer parte do ambiente informacional em que decisões são tomadas. Quando uma pessoa pergunta a uma IA quais são os candidatos, quais são suas propostas ou quem teria melhor desempenho em determinada área, a resposta deixa de ser apenas uma conveniência tecnológica e passa a ter potencial de influência”, explica Dhiego.
A característica das ferramentas generativas exige atenção porque, diferentemente de uma busca tradicional, a IA pode organizar informações e apresentar uma resposta única ao usuário. Para o especialista, a tecnologia deve ser utilizada como ponto de partida, e não como fonte definitiva.
“A principal recomendação é não tratar a resposta de uma inteligência artificial como uma fonte definitiva. A IA pode ser utilizada como ponto de partida para uma pesquisa, mas informações eleitorais precisam ser confrontadas com fontes oficiais, programas de governo, documentos públicos e veículos jornalísticos confiáveis”, afirma.
Além da forma como as informações são apresentadas, o uso de IA em conteúdos de propaganda eleitoral também traz desafios jurídicos. Newton Lins, advogado especialista em Direito Eleitoral, explica que a tecnologia ampliou as possibilidades de produção e distribuição de conteúdos políticos e tornou mais complexa a fiscalização da propaganda.
Segundo o especialista, recursos como deepfakes, conteúdos manipulados, microtargeting e sistemas automatizados podem fazer com que diferentes grupos de eleitores recebam mensagens distintas, dificultando a identificação de eventuais abusos.
“A inteligência artificial generativa transformou o ecossistema da propaganda eleitoral de modo mais profundo do que qualquer tecnologia anterior, inclusive a televisão. A propaganda eleitoral deixou de depender apenas de mensagens públicas, visíveis e uniformes, para ingressar em um ambiente digital altamente segmentado, dinâmico e personalizado”, explica Newton.
Para o advogado, um dos principais desafios está justamente na possibilidade de conteúdos serem direcionados de maneira individualizada, dificultando o acompanhamento por parte da Justiça Eleitoral e do próprio eleitor.
“A mensagem não é mais pública e uniforme, mas privada e multiforme. Esse fenômeno torna o controle judicial da propaganda eleitoral incomparavelmente mais difícil”, afirma.
As regras eleitorais já estabelecem parâmetros para o uso da inteligência artificial nas eleições de 2026, incluindo exigências relacionadas à transparência e restrições para determinadas formas de utilização da tecnologia. Nesse cenário, Newton destaca que a regulamentação precisa ser acompanhada de fiscalização e conscientização.
“A efetividade dessas normas depende de fiscalização técnica ágil e da educação digital do eleitorado. A existência de regras é indispensável, mas não elimina, por si só, a dificuldade de acompanhar conteúdos que circulam em grande volume, em diferentes plataformas e para públicos segmentados.”
Para Dhiego, a questão também passa pela capacidade do usuário de avaliar criticamente as respostas produzidas pelas ferramentas.
“A inteligência artificial consegue apresentar uma resposta com muita clareza e segurança, mas clareza não significa necessariamente precisão. O usuário precisa entender que existe uma diferença entre uma resposta bem escrita e uma informação comprovadamente correta”, ressalta.
Na avaliação de Newton, a participação do eleitor também é fundamental para reduzir os riscos de manipulação no ambiente digital.
“A conscientização do eleitor é a principal ferramenta de proteção. A inteligência artificial pode ampliar o acesso à informação, mas também pode ser utilizada para distorcer fatos, fabricar realidades e intensificar a polarização.”
O avanço da IA, portanto, coloca tecnologia e legislação diante de um novo desafio nas eleições de 2026. Enquanto as ferramentas passam a ocupar espaço na busca por informações políticas, a regulamentação, a fiscalização e a capacidade do eleitor de verificar diferentes fontes ganham importância na preservação da liberdade de escolha.

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