DIVERSAS
Perigo das telas em época de férias escolares
Publicado em
20 de dezembro de 2025por
Eugenio Piedade
Pesquisa aponta que hábito começa cedo e especialista alerta para prejuízos no aprendizado e nas relações sociais
Época de férias requer cuidado redobrado quando o assunto são crianças e o uso de telas de tablets, computadores, celulares e jogos com o uso da internet em geral. Pesquisa mostra que mais de 60% das crianças de até seis anos já têm contato direto com celulares, TVs e tablets por duas a três horas diárias. Os dados são da pesquisa “Panorama da Primeira Infância”, realizada pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal neste ano.
O levantamento mostra, ainda, que 78% das crianças de até três anos usam telas todos os dias, embora 58% dos pais admitam que esse hábito deveria ser limitado. Para a especialista em Educação Inclusiva e em Psicopedagogia Escolar, Sandra Cirillo, coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental II na Escola Gracinha, o uso excessivo não afeta apenas a rotina em casa, mas também o desempenho escolar, comprometendo a atenção aos conteúdos e as relações interpessoais.
Ela comenta que a exposição constante cria uma dependência que restringe a atenção e dificulta a concentração em atividades. “Como o uso do celular ocasiona certa dependência das telas, os estudantes tendem, pelo excesso desse uso, a manterem a atenção limitada aos conteúdos que são apresentados pelos algoritmos, que abarcam mensagens prontas, apresentação de informações rasas, de engajamento autômato e que não promovem, de maneira geral, exercícios de cognição, elaboração, reflexão e criticidade”, explica.
Os efeitos se estendem também às interações sociais, uma vez que as relações interpessoais exigem esforço, negociação e convivência com as diferenças e, ao contrário do que acontece no ambiente digital, não podem ser simplesmente desconectadas diante de situações desagradáveis. Com o distanciamento provocado pelo excesso de telas, muitos perdem, inclusive, a capacidade de lidar com os dilemas próprios da vida na coletividade.
Nesse contexto, o resgate do brincar aparece como alternativa essencial. “As atividades lúdicas oferecem a possibilidade de que crianças e adolescentes encontrem prazer com outras formas de entretenimento e de relação com seus pares. Com o excesso de telas e o seu poder de adição, os estudantes tendem a entender que essa é a única forma possível de diversão e interação, mas que se apresenta como um modo passivo e individualizado de entretenimento”, afirma Sandra.
Brincadeiras, jogos e passeios ao ar livre, segundo ela, despertam a criatividade e o engajamento com a coletividade, ajudando a substituir o tempo de tela por experiências mais significativas. “A tendência é a de que, ao iniciarem atividades que dão prazer e promovem integração, ‘esqueçam-se’ temporariamente das telas, uma vez que estão imersos em outras atividades que dão sentido e que divertem”, complementa.
Interação humana
Para a especialista, propostas que relacionam interação humana e estímulo à autoria são as mais eficazes em sala de aula. “De maneira geral, as que agregam jogos, brincadeiras e atividades artísticas e corporais. Propostas que envolvam autoria e estímulo à criatividade, ou seja, que as crianças e os adolescentes possam criar brincadeiras e atividades de proposição coletiva, gerando engajamento, pertencimento e colaboração”, elenca.
Além do interesse, há benefícios diretos no desenvolvimento. As atividades lúdicas oferecem um grande potencial de desenvolvimento cognitivo e capacidade para as relações sociais. As brincadeiras, os jogos, as atividades artísticas plásticas e corporais estimulam a criatividade, a produção autoral autônoma, a resolução de problemas, a empatia, a sensibilidade, a mediação de conflitos, a atenção, a coordenação motora, entre outros aspectos que estão relacionados ao desenvolvimento cognitivo em qualquer idade.
Segundo Sandra, o desafio é tornar essas propostas tão atrativas quanto os celulares. “As atividades lúdicas devem ser oferecidas com regularidade, estarem adequadas à faixa etária e ajustadas ao interesse dos estudantes. Além disso, é preciso que a equipe docente e demais educadores da escola também estejam engajados com o sentido e a função das propostas planejadas e apresentadas aos alunos”, orienta.
Ela acredita, ainda, no equilíbrio entre tecnologia e ludicidade e ressalta que esses recursos trazem benefícios para a vida diária e para o âmbito escolar. “Penso que não existe uma fórmula pronta porque, com a tecnologia, as problemáticas se alteram a todo instante. Sempre haverá espaço para outras propostas dentro da escola, pois esse é o espaço da presença e das relações humanas, portanto, da inventividade”, finaliza.
Sandra Cirillo – Coordenadora Pedagógica – Ensino Fundamental II
Pedagoga com especialização em Educação Inclusiva e em Psicopedagogia Escolar. Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP). Experiência em formação docente, orientação a famílias e acompanhamento de crianças e adolescentes. Coordenadora do Centro de Estudos “Educação contra a Violência”, com atividades voltadas à formação nas temáticas da inclusão e da violência escolar, atuando em instituições de ensino junto à estudantes, famílias e equipe escolar. Desde 2015 trabalha como pesquisadora no Laboratório de Estudos sobre o Preconceito (LaEP), no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, participando de pesquisas envolvendo os temas: inclusão, preconceito e violência escolar. Atualmente integra a equipe em duas pesquisas, ambas financiadas pelo CNPq: Ações de enfrentamento ao bullying e à discriminação na escola pública (observatório de violência escolar) e Bullying e preconceito como expressões individuais do totalitarismo e do autoritarismo.
Sobre a Escola Gracinha
A Escola Gracinha é mantida pela Associação Pela Família, uma organização sem fins lucrativos, que alia tradição e inovação para formar estudantes críticos, criativos e conscientes. Da Educação Infantil ao Ensino Médio, valoriza o protagonismo, a colaboração e os aprendizados significativos, em uma comunidade acolhedora e comprometida com a construção de um mundo mais justo e sustentável.

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