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Distritais discutem riscos de instalação de termelétrica no DF
Publicado em
26 de junho de 2025por
Eugenio Piedade
Distritais discutem riscos de instalação de termelétrica no DF
Empresa que elaborou estudo de impactos ambientais atesta a construção do empreendimento, mas deputados divergem de pontos do estudo
Na 8ª reunião da CPI do Rio Melchior, nesta quinta-feira (26), a Câmara Legislativa recebeu técnicos da Ambientare, empresa que elaborou o relatório de impacto ambiental da Usina Termelétrica Brasília (UTE Brasília), que será construída pela Termonorte. O projeto do empreendimento passou a fazer parte do escopo de investigação da comissão, uma vez que está prevista a captação da água do rio para o resfriamento das caldeiras da usina. Por quatro horas, os representantes da companhia responderam questionamentos sobre os poluentes que poderão ser lançados no corpo hídrico, no solo e na atmosfera, além dos impactos sociais previstos.
Mesmo detectando 24 impactos ambientais negativos e quatro positivos, a conclusão do estudo atesta que a implantação da UTE Brasília é viável sob o ponto de vista ambiental, técnico e socioeconômico, desde que sejam rigorosamente cumpridas as condicionantes e programas ambientais estabelecidos.
A presidente da Comissão, deputada Paula Belmonte (Cidadania), mais uma vez demonstrou preocupação com as possíveis consequências da construção da usina. A remoção da Escola Classe Guariroba, que hoje ocupa o local onde será implantada a UTE, a possibilidade de captação de água do lençol freático por meio de poços artesianos e a elevação da temperatura da água no rio foram os principais pontos questionados pela parlamentar, que afirmou que a CPI vai esmiuçar o projeto e propor soluções para todos os problemas identificados.
“Aqui temos seriedade e o compromisso de fazer um trabalho propositivo e técnico, mas, principalmente, um trabalho que tenha um reflexo a longo prazo para o DF”, pontuou.
Conforme explicou o diretor-presidente da Ambientare, Felipe Stahlhoefer Lavorato, a escolha do local para a instalação do empreendimento levou em conta três aspectos principais: a proximidade com a subestação elétrica de Samambaia; a proximidade com o ponto de chegada do gasoduto que será instalado no DF (Gasoduto Brasil Central); e a disponibilidade hídrica do rio, que, em sua avaliação, é suficiente para o processo de resfriamento exigido pela termelétrica.
Alvo de diversas críticas por parte de parlamentares, a escolha da matriz energética foi defendida por Lavaroto. “O gás natural, dentro das fontes fósseis, é a fonte de energia mais limpa que há no planeta. Na COP 29, por exemplo, o gás natural foi considerado o combustível da transição energética”, declarou.
Ele explicou que a utilização da termelétrica como fonte de abastecimento de energia se dará de forma complementar à rede já existente, garantindo a estabilidade do sistema.
“Para se promover uma transição energética para fontes limpas em médio e longo prazo, é necessário a utilização do gás, porque as outras fontes – como a hídrica, a fotovoltaica ou a eólica – são instáveis e não garantem a estabilidade. A termelétrica exerce um papel de backup de estabilização da rede”, pontuou.

Temperatura da água
A termelétrica a gás natural gera energia elétrica por meio da queima do gás, que movimenta turbinas acopladas a geradores. Os gases quentes da combustão são reaproveitados para aquecer água, produzindo vapor que aciona uma segunda turbina. Após isso, o vapor é resfriado, volta à forma líquida e retorna à caldeira, reiniciando o ciclo.
Divergindo do que havia sido dito pelo representante do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) Breno Bispo da Silva à CPI, os técnicos da Ambiantare informaram que o processo deverá aquecer a água do rio em apenas um grau Celsius, podendo chegar a, no máximo, três graus. Na oitiva de 12 de junho, o Ibama havia dito que, no local de despejo, a água poderia ser elevada a sete graus.
A gerente técnica da Ambientare, Marília Lopes da Rocha, explicou que a usina adotará um processo que utiliza uma bacia de contenção para armazenar a água após seu uso nas caldeiras, o que faz com que seja reduzida sua temperatura antes de ser lançada no Melchior, que tem temperatura média de 22 graus. Os representantes da empresa atestaram ainda que, após o processo, a água retorna ao rio em qualidade superior à que foi captada.
Belmonte questionou a contradição das informações apresentadas pela empresa e pelo órgão ambiental, mas os técnicos atestaram que um dos critérios para a concessão da licença à Termonorte é justamente o cumprimento das normativas do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que estabelecem o limite de até três graus na elevação da temperatura do corpo hídrico nos locais onde são lançados os efluentes.

Lençol freático e poluição do ar
Outro ponto duramente criticado pela deputada Paula Belmonte é a possibilidade de degradação do lençol freático do Melchior. Consta no estudo técnico que a Termonorte poderá solicitar aos órgãos ambientais autorização para extrair água de camadas inferiores ao leito do rio por meio de quatro poços artesianos, o que, na avaliação da parlamentar, pode comprometer ainda mais a saúde do corpo hídrico.
Os técnicos da Ambientare minimizaram os riscos e afirmaram que a perfuração dos poços dificilmente será necessária, uma vez que, de acordo com os dados extraídos, o volume do Melchior seria suficiente para a operacionalização da usina. “A perfuração dos quatro poços estão citados no estudo como uma possibilidade de captação de água. Uma alternativa de standby”, defendeu o diretor da empresa.
A presidente da comissão afirmou que as alegações dos técnicos não são convincentes o suficiente para afirmar que o lençol freático está protegido. “Para que a previsão de perfurar quatro poços? Essa previsão está muito além do normal, já que vocês alegam que só a água do rio seria suficiente”, protestou Belmonte.
Preocupado com a possibilidade de emissão de gases tóxicos no ar, o relator da comissão, deputado Iolando (MDB), fez questão de saber como se dará a medição dos gases lançados e se eles poderiam ser prejudiciais à população vizinha.
Marília Rocha destacou que foram feitas medições no local em que o projeto será implantado e foi identificado que a qualidade atmosférica do local é boa. Essas análises vão servir para que sejam feitos comparativos futuramente quando a UTE estiver operando, mas a técnica adiantou que a liberação de partículas no ar terá de atender a rigorosos critérios estabelecidos e fiscalizados pelos órgãos ambientais.
Os técnicos frisaram que não será emitido gás metano no processo da queima do gás, e que a concentração de CO² liberada após a dispersão será de três a seis vezes menor que o limite permitido pela legislação. “A possibilidade é mínima ou nula de gerar impacto na saúde das pessoas”, respondeu Rocha ao deputado Iolando.
O deputado Gabriel Magno (PT) rebateu as alegações da Ambientare sobre os baixos índices de poluentes liberados na atmosfera. Para efeito de comparação, o parlamentar mencionou um estudo que aponta que, em 2023, todo o sistema de transporte do Distrito Federal – o que inclui a totalidade de veículos a combustão que circulam nas vias da Capital – lançou ao ar 3,1 milhões de toneladas de CO², enquanto a previsão de emissão pela termelétrica é de 4,7 milhões. “Imaginem o impacto na poluição do ar se a gente mais do que dobrar nossa frota de veículos”, questionou o distrital.

Gasoduto
Para que a usina termelétrica a gás possa operar, é preciso que ela esteja conectada a um sistema de gasoduto, o que ainda não existe no DF. Os representantes da empresa explicaram que está em fase de licenciamento a construção do Gasoduto Brasil Central, que parte da cidade de São Carlos (SP) e vai se conectar a Goiás e ao DF. A conexão da UTE com este gasoduto será realizada por um ramal com extensão de 200 metros.
Para Magno, é estranho que já esteja em curso o processo de discussões para a concessão de licenças ambientais à termelétrica uma vez que a tubulação sequer foi liberada e construída. Para ele, há um forte interesse econômico envolvido e o componente ambiental está sendo deixado em segundo plano.
“Nós sabemos que há um interesse econômico enorme por trás desse empreendimento. É um empreendimento bilionário, que envolve a construção de um gasoduto e a construção e manutenção de uma usina termoelétrica. Há muitos interesses financeiros agindo por trás disso. Temos que ter noção dos reais perigos desse empreendimento”, declarou.
A CPI deu sequência às oitivas desta quinta-feira recebendo representantes da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (ADASA). A próxima visita técnica será nas instalações do frigorífico da Seara e está marcada para 8 de agosto. A reunião de hoje pode ser assistida pelo YouTube da Câmara.

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