Da China às águas do Rio Negro: o longo caminho dos Equipamentos de Proteção Individual contra a Covid-19 até o Brasil

Essenciais para redução do contágio do novo coronavírus, insumos exigiram logística de transporte de guerra

ROTA-CHINA BRASIL

Pelas águas do Rio Negro, no Amazonas, o médico Guilherme Reis Monção, 35 anos, percorre quilômetros no atendimento à população de São Gabriel da Cachoeira, próximo às fronteiras com Colômbia e Venezuela, município com maior concentração de indígenas do Brasil –   cerca de 90% dos quase 45 mil habitantes. São 23 povos e mais de 600 comunidades. Há um ano e meio como profissional de saúde de povos tradicionais, Guilherme enfrenta o maior desafio da carreira: trabalhar no controle de uma pandemia. Junto com ele no trajeto entre uma comunidade e outra, há sempre toucas, luvas, aventais, e, claro, máscaras de proteção, do tipo N95. O material é tido pelas autoridades de saúde como fundamental para diminuição da disseminação do coronavírus, já que o agente causador da Covid-19 se espalha facilmente pelo ar. Em locais que reúnem grande quantidade de povos indígenas, o uso da máscara é indispensável. “A máscara segura a concentração de vírus. O que eu mandaria para o ambiente, vai ficar retido. Existe, sim, proteção. O profissional de saúde quando vai para uma comunidade indígena precisa de uma máscara mais segura”, diz o médico.

Parte das máscaras que Guilherme carrega já percorreu um longo caminho até chegar às águas do Rio Negro. Uma operação interministerial para aquisição dos materiais teve início em duas cidades da China, Xiamen e Guangzhou, e exigiu um plano logístico de transporte longo e detalhado. Amsterdã (Holanda), Auckland (Nova Zelândia), Santiago (Chile) foram alguns dos destinos utilizados para escalas e pousos no percurso dos aviões. A necessidade dos insumos em grande quantidade no Brasil limitou as opções de uso de transportes pelo Governo Federal. A maneira mais viável de trazer os materiais da China até o Brasil seria de navio, pela capacidade de volume de carga transportada, mas esse percurso pode durar de 45 a 60 dias, tempo que a pandemia não espera para se alastrar.

Entre 6 de maio e 19 de julho, 39 voos fretados pelo Ministério da Infraestrutura cruzaram o oceano Atlântico com o objetivo de abastecer a rede pública de saúde com máscaras, destinadas, principalmente, aos profissionais de saúde que atuam na linha de frente do combate ao coronavírus. Cerca de 300 colaboradores, entre despachantes operacionais, pilotos, copilotos, supervisores, coordenadores, planejadores, funcionários de carga e apoio em solo, cruzaram um total de 11 fusos horários.

AVIÕES

Com o mundo inteiro de olho na China para aquisição de produtos da saúde, a demanda repentina por aviões cargueiros se apresentou como um dos obstáculos a serem superados na busca das máscaras. A solução para o transporte dos insumos foi a adaptação de cinco aeronaves do modelo Boeing 777, utilizada para transporte de passageiros, para serem preenchidas com carga. O primeiro voo carregado com o insumo chegou ao Aeroporto Internacional de Guarulhos em 6 de maio. O último, o voo JJ9553, proveniente de Guangzhou, pousou em São Paulo na noite de 19 de julho, trazendo 3,7 milhões de máscaras modelo N95. A importação, ao todo, somou 240 milhões de unidades.

“Foram mais de mil toneladas de máscaras. A maior parte dos equipamentos de proteção é adquirido na China. Tínhamos mercados muito pesados, como Estados Unidos, Europa, África, todos comprando e trazendo de avião. O que estava mais difícil de encontrar naquele momento eram os aviões de carga. Os transportes aéreos foram adaptados para carga tanto nos porões, que é a parte de baixo da aeronave, mas também nas cabines, onde vão os passageiros. Como era um produto com peso baixo, mas com volumetria muito grande, esse ganho de espaço nas cabines foi fundamental. Cada voo conseguiu trazer de 7 a 8 milhões de máscaras”, explica o secretário-nacional de Aviação Civil, Ronei Saggioro Glanzmann.

As cinco aeronaves modelo Boeing 777 foram utilizadas em revezamento na operação. Entre idas e vindas da China até o Brasil, foram 1,2 mil toneladas de insumos distribuídas em 146.661 caixas, em uma distância acumulada de 1,9 milhão de quilômetros. A logística de transporte, segundo Ronei Saggioro Glanzmann, foi inédita. “Foi algo nunca feito antes no Brasil. Uma operação como essa demanda interlocução e muita ação conjunta.”

DESEMBARQUE E DISTRIBUIÇÃO

Uma vez em território nacional, a distribuição das máscaras importadas inicia uma nova fase da logística de transporte. Ao desembarcarem em São Paulo, os insumos são armazenados em um depósito do Departamento de Logística do Ministério da Saúde, próximo ao aeroporto de Guarulhos.

Para a região Sudeste, Sul e algumas partes do Centro-Oeste, a distribuição é feita utilizando a malha rodoviária, principal modal utilizado para escoamento de carga no Brasil. Segundo o Índice da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR) de julho, o movimento de veículos pesados, principalmente caminhões, cresceu 5,3% nas rodovias brasileiras com pedágio.

“Hoje, a rede de transporte, especialmente a rede rodoviária do país, está em condições, tanto qualitativa quanto quantitativa, de atender essa demanda (de distribuição de insumos). Há veículos que transportam grande quantidade para um centro de distribuição. Desse centro de distribuição, caminhões menores, caminhonetes, fazem a chamada ‘última milha’, para chegar até o local onde o produto vai ser utilizado”, avalia José Augusto Valente, o engenheiro e ex-secretário de Política Nacional de Transportes do então Ministério dos Transportes do primeiro mandato do ex-presidente Lula.

Utilizado quase que exclusivamente para o transporte de cargas, o modal ferroviário também poderia ser uma opção para o escoamento dos insumos de saúde. Atualmente, o Brasil detém a nona maior malha ferroviária do mundo, com aproximadamente 30 mil quilômetros. A extensão quilométrica, no entanto, é baixa quando comparada a dos primeiros países da lista, como Estados Unidos (293 mil), China (124 mil) e Rússia (87 mil).

O modal ferroviário caracteriza-se pelo transporte de grandes volumes de cargas por grandes distâncias e o carregamento geralmente é de baixo valor, como minério de ferro. Na avaliação de Valente, a efetividade do modal rodoviário e as distâncias percorridas são os fatores que colocam as ferrovias um passo atrás na utilização para distribuição de insumos de saúde. “O modal rodoviário traz segurança, do ponto de vista de que vai ser transportado naquele momento e que a carga vai chegar em bom estado. Nessa questão, o rodoviário ganha dos outros modais. Como estamos falando de uma carga de alto valor, como produtos de saúde, não cabe ser transportado pela malha ferroviária. Caminhões, por exemplo, oferecem um custo de frete a altura da carga que ele transporta. O rodoviário oferece as melhores condições para cargas de valor agregado”, explica.

Para as regiões mais distantes do ponto de chegada dos insumos de saúde, como o Norte e o Nordeste, o transporte dos materiais é feito via aéreo, em porões de aeronaves de passageiros da malha doméstica e em aviões de carga. Mesmo com a redução da atividade econômica e queda brusca da demanda por transporte aéreo, a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) manteve a chamada “malha essencial”, distribuição dos voos para garantir interligação no país, com ajustes para que as unidades da Federação não fiquem sem pelo menos uma ligação aérea.  “É exatamente nessa malha essencial que vai o transporte dos equipamentos, como máscaras, respiradores, equipamentos de apoio à área de saúde”, explica Ronei Saggioro Glanzmann.

DIFÍCIL ACESSO

São Gabriel da Cachoeira, também conhecido como “Cabeça do Cachorro”, é um dos muitos lugares no Brasil por onde só se chega de avião ou de barco. “Como aqui as nossas estradas são rios, (os insumos) vêm de balsa para o município. Saem de Manaus e o trajeto pode durar até sete dias”, destaca o secretário municipal de Saúde, Fábio Sampaio.

Parte dos insumos trazidos de fora do país foi distribuído aos 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), por meio da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), e de lá, encaminhados às comunidades de mais difícil acesso, via aérea e fluvial. É o que ocorre em parte das 600 comunidades de São Gabriel da Cachoeira.

Com suporte do Comando Logístico do Exército, por meio do Centro de Coordenação de Operações Logísticas, foram realizadas mais de dez coordenações de apoio com a Força Aérea Brasileira (FAB), particularmente para a Amazônia, e missões de transporte hidroviário para regiões sem acesso rodoviário, tais como o município do secretário Fábio Sampaio e Tabatinga, distante cerca de 500 quilômetros. Em rodovias, foram percorridos 7.200 quilômetros para a região do Comando Militar do Oeste e do Comando Militar da Amazônia.

“Para trazer insumos, tivemos apoio também dos aviões da FAB e quando necessário, há a lancha rápida, que faz o trajeto de Manaus a São Gabriel em 24 horas. Os DSEIs têm horas-voos, têm helicópteros, aviões. Então essa foi a logística que utilizaram para deixar nas aldeias os insumos necessários”, completa Sampaio.

O secretário-especial substituto da Saúde Indígena, Rodrigo Santana, destaca que a localização das aldeias, em algumas situações, dificulta a logística de distribuição de insumos de saúde.

“Os Distritos Sanitários Especiais Indígenas têm autonomia para contratação de todo o modal de transporte, seja terrestre, fluvial ou aéreo. As missões interministeriais têm caráter também humanitário e desenvolvem ações de essencial logística para o transporte dos EPIs, medicamentos, insumos, da própria alimentação”, avalia.

As máscaras têm papel fundamental na prevenção ao contágio do coronavírus. Pelas comunidades de São Gabriel da Cachoeira, o médico Guilherme Reis segue atuando no combate à pandemia em povos tradicionais. Os desafios são muitos. Um dos principais, segundo o médico, é o geográfico. Há locais em que nem barco e avião são opções, apenas helicóptero.

Além do controle sanitário, os profissionais de saúde da região também se veem na frente de uma barreira cultural. “O processo de cura e de doença na comunidade indígena são diferentes da nossa concepção. Entrar na comunidade, falar para não se reunirem mais por um período de tempo, sendo que uma comunidade é como uma grande família, é muito difícil. Ter que transgredir a cultura indígena é complicado”, diz Guilherme.

Mesmo com os desafios, para Guilherme, o auxílio médico prestado aos povos indígenas é gratificante. “Trabalhar com pessoas que falam outros idiomas e se fazer entender, compreender uma cultura totalmente diferente, uma visão de mundo diferente, conseguir respeitar. Está sendo um desafio gigantesco. Sou muito realizado, muito feliz de trabalhar na comunidade indígena”, completa.

Postagem: http://olhosdeaguianoticias.com.br

Fonte: Brasil 61

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